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Alta nas cirurgias plásticas reforça alerta sobre segurança

O Brasil se consolidou como o país que mais realiza cirurgias plásticas estéticas no mundo. Em 2024, foram cerca de 2,35 milhões de procedimentos cirúrgicos, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). Quando considerados também os procedimentos não cirúrgicos, o volume ultrapassou 3,1 milhões de intervenções estéticas no país.

O crescimento coloca em evidência uma etapa que acontece antes do centro cirúrgico: a decisão sobre quando, como e até se determinado procedimento deve ser realizado. Em um cenário no qual pacientes chegam aos consultórios com mais informações e referências encontradas principalmente nas redes sociais, indicação médica e alinhamento de expectativas ganham ainda mais importância.

Para o cirurgião plástico Pedro Morales, de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, segurança não se restringe ao procedimento. Ela começa na avaliação das condições clínicas, das características individuais e das expectativas de cada paciente.

"A cirurgia plástica não começa no centro cirúrgico. Ela começa na consulta, quando entendemos por que aquela pessoa está buscando uma mudança, avaliamos o que é possível fazer e construímos uma expectativa realista. A transparência nessa conversa também faz parte da segurança do paciente", afirma Morales.

Crescimento amplia responsabilidade médica

O mercado brasileiro acompanha um movimento global. Em 2024, foram realizados quase 38 milhões de procedimentos estéticos cirúrgicos e não cirúrgicos no mundo, sendo mais de 17 milhões de cirurgias, de acordo com a ISAPS. Ao mesmo tempo, aumentou a circulação de conteúdos sobre estética, técnicas e resultados nas plataformas digitais. Fotografias de antes e depois e referências de procedimentos passaram a fazer parte do repertório de muitos pacientes antes mesmo da primeira consulta.

Para Morales, esse conteúdo pode ajudar a traduzir o que o paciente busca, mas não deve determinar uma indicação. Anatomia, proporções corporais, qualidade da pele, histórico de saúde e capacidade de cicatrização estão entre os fatores que precisam ser considerados na definição de cada caso.

A avaliação também passa pela motivação que leva à procura. Autoimagem, autoestima e momentos específicos da vida podem influenciar a decisão por uma cirurgia, o que exige clareza para apresentar possibilidades, limitações e, quando necessário, contraindicar um procedimento.

Segundo o cirurgião, a relação de confiança passa justamente pela capacidade de não transformar o desejo do paciente em uma indicação automática. Em alguns casos, a conduta mais adequada pode ser propor outra abordagem ou não realizar a cirurgia.

Planejamento também determina segurança e resultado

A indicação é apenas o início do processo. Avaliação clínica, exames, histórico de saúde, definição da técnica e orientações sobre a recuperação integram o planejamento que antecede uma cirurgia plástica. O cuidado continua depois do procedimento. Edema, cicatrização, adaptação dos tecidos e evolução gradual fazem parte da recuperação e precisam ser considerados na expectativa construída antes da cirurgia.

"Cirurgia exige detalhe. Eu acredito muito em planejamento, em fazer uma avaliação pré-operatória criteriosa e em acompanhar o paciente depois. Para mim, o procedimento não termina quando a cirurgia acaba. O pós-operatório também faz parte do tratamento", explica Morales.

Esse acompanhamento, segundo o médico, contribui tanto para a evolução clínica quanto para a compreensão de que os resultados não são imediatos. O processo varia de acordo com o procedimento e com as características individuais de cada paciente.

Redes sociais aumentam referências e expectativas

A popularização de conteúdos sobre cirurgia plástica ampliou o acesso a informações, mas também intensificou comparações com resultados obtidos por outras pessoas. Na prática, um dos desafios passou a ser diferenciar uma referência estética de uma expectativa possível para cada paciente.

Um resultado apresentado nas redes sociais não pode ser reproduzido automaticamente em outra pessoa. Características anatômicas, qualidade dos tecidos, condições clínicas e resposta à cicatrização interferem diretamente no planejamento e na evolução.

"Não existe cirurgia plástica em série. Duas pessoas podem desejar a mesma mudança e precisar de estratégias completamente diferentes. É por isso que a consulta e a individualização são tão importantes", afirma.

Para Morales, a informação disponível na internet pode contribuir para que o paciente chegue mais preparado para a consulta e faça perguntas mais específicas. O limite está em substituir a avaliação individual por tendências, comparações ou expectativas criadas a partir da experiência de terceiros.

Segurança acompanha avanço do mercado

Com o Brasil na liderança mundial em número de cirurgias estéticas, o crescimento do setor também amplia a discussão sobre responsabilidade médica, indicação e segurança. Para Morales, o avanço precisa ser acompanhado de informação e de uma relação mais transparente entre médico e paciente.

A transformação estética pode ter impacto na autoestima e na forma como uma pessoa se percebe, mas a cirurgia plástica permanece, antes de tudo, um procedimento médico. Técnica, planejamento, transparência e acompanhamento devem orientar a decisão do início ao fim.

Sobre Pedro Morales

Pedro Morales é médico cirurgião plástico, empresário e autor, com atuação em Ribeirão Preto (SP). Na cirurgia plástica, trabalha com foco em planejamento, individualização, transparência e acompanhamento do paciente em todas as etapas do tratamento.