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Marcas brasileiras ganham espaço no e-commerce nacional

Em qualquer tarde comum de 2026, milhões de brasileiros abrem o Mercado Livre, a Amazon ou a Shopee em busca de algo para a casa. Uma faca, uma torneira, uma bandeja, um pote. O que mudou nesses cliques nos últimos cinco anos não foi a quantidade. Foi o tipo de marca que aparece quando os resultados carregam. Nomes que há pouco tempo ninguém tinha ouvido falar dividem espaço hoje com fabricantes tradicionais, e em algumas categorias, já lideram em busca e em volume. Por trás dessa mudança discreta na tela do celular, está acontecendo o maior rearranjo do varejo brasileiro em decadas.

Os números do setor confirmam a movimentação no agregado. O comércio eletrônico brasileiro encerrou 2025 com R$ 235,5 bilhões em faturamento, alta de 15,3% sobre o ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (ABIACOM). A projeção para 2026 está em R$ 259,8 bilhões. A categoria de móveis e decoração avançou 17% no período. Mas o dado que melhor explica a mudança em curso está enterrado nos levantamentos consolidados de ABComm e Neotrust: as pequenas e médias marcas de nicho, sem investidor de fora e sem operação de massa, vêm crescendo em ritmo duas a três vezes maior que a média do setor. O e-commerce abriu uma porta que ficou trancada por décadas para esse tipo de empresa. Quem entrou, transformou o setor.

O que o app revela antes da compra

A explicação para o salto começa fora do varejo. Está no consumidor. Hoje qualquer brasileiro com celular na mão compara três marcas, lê review no YouTube, checa reputação no Reclame Aqui e vê o produto sendo usado na cozinha de alguém parecido com ele em meia hora de pesquisa. A última parte é a mais subestimada. As avaliações com foto, que viraram padrão no Mercado Livre, na Amazon e na Shopee, transformaram o boca a boca em prova social escalável e visual. O cliente que recebeu o produto fotografa em casa, mostra a cor real no fundo neutro da bancada, registra o tamanho ao lado de uma xícara para dar referência, aponta o defeito ou o acerto sem rodeio. Quem está prestes a comprar vê tudo isso antes de decidir. Não há campanha institucional que sobreviva a essa lente de aumento.

Com informação no bolso, o consumidor parou de tolerar produto que descasca em três meses, utensílios de baixa qualidade, embalagem com produtos cada vez menores dentro. Marcas que viviam de proteção de prateleira com margens exorbitantes, com pouca concorrência local e cliente desinformado, começaram a perder espaço. Quem fabrica bem e explica bem o que faz, ganha. Quem fabrica mal e maquia preço, perde audiência rápido. Foi nessa fissura que se instalou uma nova geração de marcas brasileiras.

Quando a barreira da prateleira caiu

Antes do e-commerce, a equação do varejo era outra. Para colocar um produto numa rede física, uma marca pequena precisava de prazo de pagamento longo, taxa de cadastro, verba para ponto de venda e, em geral, sócio com nome no meio. Para boa parte das marcas com produto bom, isso simplesmente inviabilizava o negócio. O digital inverteu a lógica. Hoje uma marca chega ao consumidor final com anúncio bem feito, produto consistente, logística terceirizada e um SAC que responde no WhatsApp. O custo de entrada despencou e levou junto a barreira que segurava o surgimento de novas marcas nacionais.

Esse caminho aparece em histórias parecidas espalhadas pelo país. Em Maringá, no Paraná, a Softinox se consolidou em metais sanitários, com linha de cubas, torneiras, válvulas e acabamentos vendidos para todo o Brasil via loja própria e marketplaces. Em outra ponta, a Vidro & Decor cresceu operando principalmente no Mercado Livre, com produtos de vidro e decoração e mais de 4.500 seguidores na loja oficial, com baleiros giratórios e kits de lavabo entre os mais vendidos da categoria.

Em Guarulhos, na Grande São Paulo, a LUMAI se firmou como fabricante de utilidades domésticas com catálogo de mais de 100 produtos, em cozinha, organização, banheiro, petisqueiras, cadernos com cadeado e canecas. A operação ultrapassa 30 mil pedidos mensais, vendidos pelo site próprio e também pelas lojas oficiais nos principais marketplaces: Mercado Livre, Amazon e Shopee.

Três marcas, três estados, três categorias. O fio que conecta as histórias é o mesmo. O e-commerce permitiu que cada uma chegasse direto ao consumidor sem depender da prateleira do varejão. Para Lucas Maia, sócio-fundador da LUMAI, o efeito disso no comportamento do cliente brasileiro é o que merece a atenção do mercado. "O consumidor de hoje sabe o que está comprando. Ele lê review, compara peso de embalagem, olha cor de material em foto sem filtro de outro cliente. Quando recebe algo que não cumpre o que prometeu, devolve sem cerimônia e ainda escreve em algum lugar pra avisar os outros. Isso pressiona quem está vendendo a fazer melhor. Quem entende isso e investe em qualidade real, ganha cliente que volta. Quem tenta enganar uma vez, perde dez."

O preço silencioso da redução discreta

A pressão pela qualidade veio acompanhada de uma pressão pelo preço, mas não do jeito que parece à primeira vista. Sem distribuidor, sem rede física com aluguel caro, sem estoque parado em galpão de terceiro, marcas nacionais conseguem entregar produto melhor pelo mesmo dinheiro. O brasileiro pagou caro durante décadas por produto importado de qualidade medíocre porque não havia alternativa nacional visível. A equação mudou.

Em paralelo, o cenário trouxe à tona um movimento que vinha ganhando força no varejo mundial e tem nome próprio: a redução discreta, ou shrinkflation. Diante da alta dos custos de matéria-prima, frete internacional e câmbio, marcas tradicionais escolheram manter o preço de prateleira reduzindo o que vai dentro da caixa. Diminuíram tamanho e trocaram material por versão mais barata sem aviso. Em alguns casos, cortaram acessório que vinha junto. O consumidor paga o mesmo e leva menos. A prática se espalhou do shampoo ao kit de utensílios de cozinha. Em pesquisas do Ipea e da Abras, brasileiros que perceberam a mudança em embalagens passaram a trocar de marca com mais frequência nos últimos dois anos. O vácuo abriu espaço para marcas que escolheram o caminho oposto. Lucas Maia comenta. "Tem mercado que reage à pressão econômica encolhendo o produto e esperando que o cliente não perceba."