Tecnologia

CBA desenvolve tecnologia que elimina barragens e melhora a produtividade do solo

“Atecnologia é muito importante para a atividade da CBMM, porque o grande foco em nossa estratégia é o crescimento do mercado de nióbio. A CBMM tem uma reserva muito grande de nióbio e uma capacidade produtiva muito grande e o que falta é mercado, mais aplicações do nióbio”. É assim que o CTO da empresa, Rafael Mesquita, justifica os pesados investimentos feitos na área de tecnologia, que só em 2023 devem somar R$ 300 milhões e que, somados aos R$ 260 milhões investidos em 2022, elevam o montante destinado a essa área para R$ 560 milhões, certamente um dos maiores aportes feitos por uma empresa no desenvolvimento de tecnologias, mesmo em termos internacionais. Esse esforço foi reconhecido pelo público de Brasil Mineral, que elegeu a CBMM como Empresa do Ano do Setor Mineral, na categoria Inovação e Tecnologia.

Rafael Mesquita explica que desde a década de 1970 a empresa trabalha muito forte no crescimento das aplicações de nióbio, do qual é o maior produtor mundial, e isso faz com que a alavanca principal de sua estratégia seja o desenvolvimento tecnológico. Nessa linha, a CBMM procura trabalhar em parceria com os clientes – às vezes com os clientes dos clientes – e com instituições de ensino e pesquisa visando sempre desenvolver novas aplicações e fomentar o crescimento do uso do nióbio.

O foco principal do desenvolvimento tecnológico tem sido o uso do nióbio em aços, que hoje representa a maior fatia de mercado para a companhia. “O nióbio hoje é muito usado em aços, como um elemento químico que pode ser usado em diversas aplicações. Mas a característica principal do nióbio é fazer parte de outros materiais”, diz Mesquita.

O uso do nióbio na siderurgia começou com os aços para tubulação de gás, em que o nióbio proporciona uma segurança muito grande, porque essas tubulações são todas soldadas e o nióbio oferece a segurança necessária na parte da soldabilidade. Depois, o uso avançou em muitas outras áreas do aço, trazendo as mesmas características, isto é, segurança e aumento da resistência. A adição do nióbio permite se usar menos aço, tornando as estruturas mais leves, o que foi muito importante na indústria automotiva na década de 1990, quando o mundo começou a buscar redução de emissões e com isso os veículos começaram a ficar mais leves. Além disso, o nióbio contribuiu para dar mais segurança aos veículos, já que o aço com nióbio é muito mais resistente.

Assim, o grande o mercado hoje, no qual a CBMM mais investe em tecnologia, é na expansão do uso do nióbio na fabricação dos aços, em três grandes áreas: tubulações de gás (além do gás natural está sendo estudado o uso em tubulações de gases como nitrogênio e CO2), área automobilística e o setor de construção civil.

Mas a CBMM também está focando em outras áreas e a que desponta como mais promissora, conforme o CTO, é a de baterias, onde o nióbio traz vantagens em termos de segurança. Como explica Rafael Mesquita, o nióbio atua basicamente no ânodo da bateria, mas também no cátodo. “E esta é uma área de crescimento, porque os veículos elétricos estão crescendo muito e isso abre uma série de oportunidades importantes para o nióbio. Esse projeto começou relativamente pequeno e vem se fortalecendo desde 2019. Tanto que quase um terço do investimento em tecnologia é dedicado ao programa em baterias”.

Porém, a busca por novas aplicações para o nióbio não pára por aí. Existem algumas outras áreas, além da siderurgia e das baterias, como materiais nanocristalinos e fundidos. São áreas em que não se prevê um crescimento tão forte quanto em baterias, mas que também estão merecendo a atenção da empresa.

Mara Fornari

Maior que a satisfação de ganhar um prêmio é ter a certeza de que as boas práticas e as transformações inovadoras estão sendo reconhecidas – “fazer uma mineração sustentável sempre foi uma premissa nossa”, disse Luciano Alves, presidente-executivo da Companhia Brasileira de Alumínio – CBA, uma das vencedoras do prêmio “Empresas do Ano do Setor Mineral 2023”, na categoria Governança Ambiental. A escolha dos leitores da Brasil Mineral levou em conta os avanços do projeto Tecno-solo, desenvolvido em parceria com o Departamento de Solos (DPS) da Universidade Federal de Viçosa (UFV). A técnica permite que os argilominerais voltem para o ambiente de origem, com ganhos relevantes de qualidade ambiental, ao reaproveitar o material gerado na etapa de concentração da bauxita, de modo que o mesmo possa ser utilizado como insumo para reabilitação ambiental do terreno minerado, particularmente em subsuperfície, recriando um horizonte de solo subsuperficial muito maior do que o original, permitindo a recuperação ainda mais eficiente da cobertura vegetal.

Em Miraí, na zona da mata mineira, a parceria com a UFV para recuperar as áreas mineradas logo após a extração do minério começou em 2008. A lavra de bauxita tem algumas características próprias que facilitam esse trabalho: ela é pontual, superficial, temporária e progressiva. Em paralelo, o trabalho seguiu junto com os superficiários, de forma a entender as suas necessidades e para que eles pudessem saber o que a empresa estava fazendo. O objetivo da CBA sempre foi devolver as áreas mineradas aos proprietários rurais em condições iguais ou melhores para a prática das culturas desejadas.

O Tecno-solo propriamente dito chegou depois, por volta de 2016, quando a CBA começou a pensar na concepção do projeto com dois vieses: o primeiro de uma continuidade, um aprofundamento desses estudos com a UFV, de forma a garantir a melhoria do solo e maior produtividade para o superficiário; e como alternativa técnica para não mais precisar dispor resíduo em barragem – ou seja, tratar o minério na frente de lavra e devolver o rejeito recuperando à área minerada ao mesmo tempo.

Ainda é um projeto em escala piloto, mas com boas perspectivas – “temos trabalhado com bastante profundidade no tema. É claro que tem uma complexidade técnica natural de qualquer desenvolvimento, mas estamos bastante otimistas com a alternativa, embora sabendo que ainda tem algum tempo grande de desenvolvimento até virar uma realidade. Enquanto isso, continuamos fazendo a recuperação das áreas do solo como sempre fizemos na nossa operação em Miraí”, contextualiza Alves.

Dentro dessa linha de evolução contínua, Leandro Faria, gerente-geral de Sustentabilidade da CBA, esmiúça os capítulos de inovação: “a ideia de uma peneira em substituição ao scrubber (equipamento utilizado para transformar o minério extraído em uma polpa) surgiu em 2012, entre a CBA e a Haver & Boecker Latinoamerica, a qual sugeriu, na época, o desenvolvimento de um sistema similar ao utilizado no processamento do xisto betuminoso no Canadá. Três anos depois, o projeto ganhou materialidade com a implantação, na Unidade de Miraí, de uma usina-piloto para o desenvolvimento desta peneira, batizada de desagregadora”.

Para desagregar a bauxita de forma mais eficiente, a CBA introduziu no processo uma centrífuga em circuito fechado, com bons resultados de separação do solo argilomineral. Mas era preciso avançar no inédito processo de concentração via úmida e produzir um solo pronto para aplicação imediata na reabilitação ambiental das áreas lavradas, sem qualquer geração de rejeito ou necessidade de barragens. “Assim nasceu o Tecno-solo, uma inovação que visa superar os desafios da indústria mineral relacionados à redução de consumo, recuperação de água e redução da pegada de CO2, apontando para novos modelos e alternativas em busca da sustentabilidade da atividade minerária”, ressalta Faria.

Desde então, diversas receitas de misturas estão sendo testadas em uma área experimental. No início do ano passado, a Companhia deu um grande passo e obteve junto ao órgão ambiental licença para transferir a sua planta-piloto para uma frente de lavra no município de São Sebastião da Vargem Alegre, permitindo avaliar todos os parâmetros em um ambiente real e controlado.

Faria informa que a fração orgânica vem do próprio resíduo de outros processos do agronegócio, como bagaço de cana e cobertura de aviário, adicionados a outros corretivos agrícolas. O primeiro teste foi realizado num cultivo de milho e os resultados foram espigas maiores e de melhor qualidade, com maior produtividade das regiões em relação ao processo convencional de recuperação de solo – algo entre 20% e 30% acima da média da região. Os estudos mostram que o Tecno-solo apresenta maior capacidade de penetração de água, facilidade de penetração da raiz e enriquecimento do solo.

Faria também destacou os ganhos adicionais do projeto: “a possibilidade de beneficiar o minério na própria mina gera redução do consumo de água, uma vez que o processo ocorre em circuito fechado dentro da própria centrífuga”. Os testes realizados apontam para uma redução significativa do consumo de água de 2.5 m³ para 1.7 m³ por tonelada minerada. O deslocamento médio dos caminhões que trazem o ROM diminuiu de 12 km para 3 km, dado que se tem material pronto para ir para o carregamento ferroviário. E, pelo fato de o solo estar mais bem preparado do ponto de vista de qualidade físico-química e de aeração, a capacidade de penetração das raízes é maior, assim como a captura de carbono e fixação de carbono no solo. “Um conjunto extremamente promissor, além, obviamente, do principal motivo que nos fez pensar nisso, que é a eliminação do uso de barragens. É um processo super inovador, que pode trazer um bom exemplo, especialmente para a mineração de bauxita”, diz Faria, com entusiasmo.

Um grande exemplo de circularidade: a companhia remove a bauxita, que é do interesse da produção do alumínio, e volta com o solo para o mesmo local, em condições iguais ou melhores que antes, garantindo condição superior de cultivo. “Além da circularidade, existe o adicional de geração de renda, porque se produz mais. O superficiário que recebeu a área minerada de volta pode ter uma renda melhor, seja com o cultivo de milho ou de café, melhores resultados na criação de gado (se a opção for pasto) ou maior geração de corredores ecológicos (no caso de mata nativa)”, prossegue Faria.

Como o projeto ainda está em escala piloto, os custos estão em análise pela CBA. A empresa já operava uma grande planta de lavagem e agora passa a usar uma escala menor, com o auxílio de um equipamento móvel de beneficiamento que segue o avanço da atividade de mineração, fazendo também a recirculação da água dentro do processo produtivo, eliminando apenas o tecnossolo corrigido para a área. “Foi de fato um desenvolvimento tecnológico, com muita tentativa e erro, como qualquer processo dessa natureza. Ainda está em teste, mas temos um otimismo de que vai funcionar. Levamos cinco ou seis anos para chegar ao estágio atual, com as mudanças de processo necessárias para fazer da melhor maneira possível”, explica Alves.

Faria esclarece que o tecnossolo é um composto de agregação orgânica para ser misturado no argilomineral e que não há intenção de transformá-lo num produto comercial. Mas, ao movimentar a cadeia como um todo, do bagaço da cana, e da cama de aviário, o projeto tem boa dinâmica social de geração de renda local, o que é importante também. Tecnicamente, o tecnossolo poderia ser escalável para outros segmentos, muito embora seja bastante específico para a empresa.

Fonte: Brasil 61

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