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Atendimento multidisciplinar da Defensoria Pública garante proteção e reconstrói a cidadania de mulheres vítimas de violência doméstica em Manaus

‘Hoje eu me sinto uma mulher livre, independente e empoderada’, diz manauara que viveu mais de 30 anos no ciclo da violência, rompido após atuação do Núcleo de Defesa da Mulher, que conta com equipe 100% feminina e, além do amparo legal, oferece atendimento psicossocial

Baixe aqui sonoras e imagens de apoio:https://bit.ly/4c2cGAz 

Dos 55 anos de vida, a manauara Eliana Cristina Cavalcante Gomes viveu 32 deles aprisionada em relacionamentos abusivos e só conseguiu se libertar do ciclo da violência após receber o apoio multidisciplinar da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM). 

Assistida pelo Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher (Nudem), que atende exclusivamente casos de violência doméstica e familiar, Eliana conta que rapidamente conseguiu resolver sua situação em menos de um mês. 

“Hoje eu me sinto uma mulher livre. Eu me sinto uma mulher independente, empoderada, uma mulher que venceu uma violência doméstica que está aqui para dizer para todos, nós conseguimos”, relata ela. 

Coordenadora do Nudem, a defensora pública Caroline Braz explica que Eliana procurou o núcleo buscando proteção contra as agressões do ex-marido e o divórcio. “Nós conseguimos agilizar a medida protetiva e o divórcio de forma rápida. Ela também obteve, por intermédio do Núcleo de Defesa da Mulher, um auxílio-aluguel, previsto para casos de mulheres em situação de vulnerabilidade extrema”, observa. 

“Depois que fiz a denúncia de agressão no 190, eles me encaminharam para a Delegacia da Mulher, mas a medida protetiva foi indeferida. Então, eu fui até a Defensoria Pública, que fez o pedido de medida e deu entrada no divórcio”, conta Eliana. 

No Nudem, ela conta que foi “muito bem amparada por toda área, desde a recepção, a psicologia, a assistência social, o atendimento jurídico”. “Eu fui amparada por elas, que não me deixaram perder a esperança, sempre dizendo que eu ia conquistar o meu objetivo”, acrescenta. 

Ciclo de dor: da infância a casamentos abusivos

Além do período presa no ciclo da violência durante os casamentos, Eliana conviveu com um pai agressor durante a infância. Ela conta que sua mãe era constantemente agredida. 

“Eu lembro que a minha mãe estava quase perto de ter bebê, quando o meu pai a agrediu na nossa frente. Ele bateu tanto ela, derrubou ela no chão, que o bebê morreu dentro dela. Então, nós crescemos nesse ambiente”, recorda. 

Para tentar sair dessa situação, ela saiu de casa aos 12 anos de idade. Mas, não teve apoio da família, foi viver na rua e, para fugir da fome, acabou entrando no mundo das drogas, período em que chegou a pesar apenas 38 quilos. “Muitas das vezes, quando você não tem o alimento, a droga retira totalmente a vontade de comer”, afirma. 

Eliana viu no casamento uma “boia de salvação” para conseguir uma vida nova. “Eu achava que eu ia sair daquela situação, arranjando um companheiro que fosse me tirar daquele sofrimento. Pelo contrário, foi pior. Eu tentando encontrar abrigo, consolo, apoio e acabei entrando nesse mundo da violência”, conta. “E me tornei uma pessoa violenta também. Quando meus filhos eram pequenos, eu era muito violenta com eles, porque eu achava que bater, espancar, era aquilo que tinha que ser feito”, recorda.    

Eliana teve dois relacionamentos abusivos. O primeiro durou 12 anos, marcado por abuso sexual, psicológico e físico. Ela vivia com medo de ameaças de morte, sentindo-se sem forças para denunciar.  

“Numa situação como essa, você não vê mais esperança. Você está ali e não sabe se vai continuar viva ou vai ser morta. Então, as coisas vão acontecendo, os anos vão se passando e a gente vai ocultando tudo isso por conta do medo”, relata. “Mas, um dia eu não aguentei mais, criei coragem e denunciei. Após muitos anos nessa situação de violência, eu conseguir resolver”, acrescenta. 

No entanto, o breve tempo de tranquilidade foi interrompido quando se envolveu em um novo relacionamento, que foi se revelando ainda pior. O segundo marido era usuário de drogas, e Eliana novamente se viu aprisionada pelo medo e pela violência. “Foram 20 anos de muita tortura”, declara. 

“Nesse novo relacionamento, eu comecei de novo a entrar dentro de uma caixinha, sentia que não ia ter êxito de novo em sair dessa situação. E aí, foi que mais uma vez, com a força de Deus, eu tive coragem, denunciei e conheci o trabalho da Defensoria”, disse. 

No fim do ano passado, Eliana foi atendida na Delegacia da Mulher e, posteriormente, na Vara da Família, que a direcionou à Defensoria Pública, que realizou o atendimento por meio do Nudem. 

Ela temia que o processo fosse como uma “bola de neve” ou um “jogo de empurra” e que no fim não obteria êxito. Contudo, ela disse que na Defensoria Pública acolhimento e o apoio que transformaram sua vida. 

“Eu fui abraçada na minha causa e saí dali com um resultado positivo. Estive muito tempo presa nesse ciclo da violência, tinha muito medo de que algo de pior me acontecesse, mas, para a graça de Deus, eu tive coragem, agi, fui lá, saí com êxito e hoje eu estou com essa causa já resolvida”, celebra. 

Olhar multidisciplinar que reconstrói a cidadania

A assessora jurídica Cássia Oliveira explica que o caso de Eliana foi agendado inicialmente para uma demanda de família (divórcio) e a medida protetiva. Contudo, o atendimento inicial também identificou a situação de vulnerabilidade social. Assim, o caso foi encaminhado para a equipe multidisciplinar do Nudem. A partir de então, ela foi atendida pela assistente social e pela psicóloga, que identificaram outras demandas além das jurídicas. 

“Ela chegou aqui no fim dezembro de 2025, o divórcio foi protocolado em janeiro e sentença favorável saiu em apenas duas horas”, ressalta Cássia.  

Com a alteração do nome de casada para o nome de solteira, Eliana conseguiu regularizar toda a documentação e teve acesso a benefícios sociais. 

“É um procedimento relativamente simples, mas que teve um impacto revolucionário. Com isso, ela conseguiu realmente ter uma cidadania de fato e de direito”, destaca. 

A analista social e psicóloga Polyana Pinheiro conta que Eliana chegou ao Nudem com um sofrimento intenso relacionado à violência de gênero prolongada, entrelaçado a questões materiais, como fragilidades e dificuldades de acesso às políticas públicas, como habitação, alimentação, emprego e renda. 

A equipe multidisciplinar discutiu as intervenções que poderiam ser feitas. “Alinhamos os encaminhamentos iniciais, considerando o contexto de extrema fragilidade, de insegurança alimentar, entre outras demandas, para que a pudéssemos fazer o melhor acolhimento possível, que ela compreendesse que aqui era um espaço de escuta”, detalha. 

A também analista social e assistente social Márcia Moraes enfatiza que casos de mulheres em situação de violência, vão muito além das questões jurídicas, abrangendo a desproteção social e o acesso a direitos e benefícios, citando que o trabalho em rede é vital para garantir o acesso a direitos básicos, como o Bolsa Família, muitas vezes retido ou controlado pelo agressor.  

Um dos diferenciais do atendimento multidisciplinar do Nudem é o chamado “encaminhamento monitorado”, técnica que visa evitar a revitimização da assistida em outras instituições. “Acompanhamos a mulher para que não tenha que recontar a história dela novamente para pessoas que, muitas vezes, não estão bem qualificadas para ouvir”, pontua Márcia Moraes sobre a importância de garantir segurança emocional e autonomia durante a busca por serviços públicos. 

A articulação do Nudem foca em remover barreiras burocráticas que impedem a reconstrução da vida, desde a emissão de uma nova identidade até o suporte para inserção em programas de habitação. Ao garantir que a mulher assuma o controle de sua própria documentação e renda, a equipe permite que ela se sinta segura para avançar.  

O objetivo final, segundo Márcia Moraes, é que a assistida consiga, enfim, “ressignificar o processo de violência e retomar a trajetória da vida”. 

Planos de uma nova trajetória

Com o ciclo da violência rompido, Eliana Cristina conta estar feliz como nunca foi antes. Ela, que recentemente conseguiu concluir o Ensino Médio, está cheia de planos para o futuro. 

O primeiro deles é viver em São Paulo (SP), para onde deve se mudar nos próximos meses. O segundo é ingressar na universidade para cursar Pedagogia. “Quero ser professora de Libras”, revela. 

Eliana também deseja abrir um projeto social para mulheres que passaram por situações semelhantes às suas, oferecendo apoio e aconselhamento para que elas não tenham medo de vencer. “Quero apoiar outras mulheres que estão precisando, contar minha história para que eu possa passar um pouco de força e esperança”, afirma.  

Chamamento de sororidade

No encerramento do Mês das Mulheres, Eliana faz um chamamento a todas que estão passando por situação de violência doméstica e familiar.  

“Estou aqui para incentivar outras mulheres. Quero encorajar aquelas que estão ocultas, sem força e coragem para tomar a decisão que eu tomei. O conselho que eu dou a essas mulheres é que vocês tomem uma atitude, porque, se você não tem força, eles na Defensoria vão fazer por ti”, afirma. 

“É necessário que você vá ao Nudem. Tome uma atitude, procure a Defensoria Pública, ela está aí para nos abraçar, para dar o apoio que nós necessitamos”, acrescenta. 

“Na Defensoria, encontrei as portas abertas. E, em menos de um mês, eu resolvi medida protetiva, o divórcio, um auxílio que eu ganhei. Resolvi a questão da minha nova carteira de identidade também. Em 15 dias eu já estava com tudo pronto”, completa. 

“Então, eu digo a você, mulher, se dê esse presente do Mês das Mulheres, saia dessas condições, fure essa bolha. Na Defensoria, nós temos profissionais capacitadas para nos atender em relação à violência”, conclui Eliana. 

A defensora Caroline Braz reforça o chamamento. “Se você está em dúvida, se você ainda não sabe como romper o ciclo da violência, procure o Núcleo da Mulher, venha até a Defensoria Pública para que nós possamos orientá-la dizendo todos os seus direitos”, afirma. 

“Se for necessário, nós já damos entrada no pedido da medida protetiva, do divórcio, da guarda, da pensão alimentícia, até mesmo de uma ação indenizatória se for o caso”, explica. 

Caroline Braz explica que o atendimento multidisciplinar do Nudem busca facilitar a retomada da vida da mulher. “A nossa equipe psicossocial agiliza o pagamento auxílio-aluguel, a questão da necessidade de inclusão do seu filho em uma escola próximo à sua casa”, observa. 

“Se você quiser, você pode vir presencialmente até o núcleo ou você pode entrar pelos nossos canais do WhatsApp para que o seu atendimento seja feito de forma virtual, ou seja, da melhor forma para facilitar para que você busque a Defensoria”, complementa. 

A equipe do Nudem é 100% feminina. “Aqui no Núcleo de Defesa da Mulher você vai ser atendida por estagiárias, assistentes jurídicas, residentes e defensoras, todas mulheres, para que você se sinta à vontade para relatar toda a violência que você está sofrendo. Não sofra sozinha, procure a Defensoria Pública”, encerra a defensora. 

Serviço

O Nudem fica localizado na avenida André Araújo, nº 7, Adrianópolis, Zona Centro-Sul de Manaus, e funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h. Casos urgentes são atendidos no plantão, durante a semana das 14h às 18h e aos sábados, domingos e feriados das 8h às 18h. 

Os agendamentos podem ser feitos pelos telefones (92) 98559-1599 (WhatsApp) e (92) 3198-1200 e pelo site http://atendimento.defensoria.am.def.br

Texto: Luciano Falbo 

Imagens: Luiz Felipe Santos e Lucas da Silva/DPE-AM 

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