Tratamentos multifatoriais podem parar avanço da obesidade
O aumento dos níveis de obesidade tem se consolidado como um dos maiores desafios de saúde pública do século XXI. Muito além de uma questão estética, trata-se de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada ao risco aumentado de outras doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão, problemas cardiovasculares e até alguns tipos de câncer. Especialistas apontam que a combinação entre rotina acelerada, mudanças nos hábitos alimentares e sedentarismo tem impulsionado números preocupantes nos últimos anos.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade triplicou no mundo desde 1975. Em diversos países, inclusive no Brasil e nos Estados Unidos, o excesso de peso já atinge mais da metade da população adulta. O cenário reflete transformações profundas no modo de viver das últimas décadas.
Rotina corrida e alimentação ultraprocessada
A vida moderna impôs um ritmo intenso. Jornadas de trabalho extensas, deslocamentos longos e múltiplas responsabilidades reduzem o tempo disponível para preparar refeições equilibradas. Nesse contexto, alimentos ultraprocessados — ricos em açúcar, gordura e sódio — tornam-se opções rápidas e acessíveis.
Além disso, o aumento do tempo em frente a telas, seja por trabalho ou lazer, contribui para a redução da atividade física. Segundo o médico Lucas Moser, a tecnologia facilitou a vida, mas também diminuiu o gasto energético diário. "Pequenas mudanças cumulativas, como trocar caminhadas por transporte motorizado ou refeições caseiras por delivery, têm impacto significativo ao longo dos anos", reforça o médico.
Nunca foi falta de força de vontade
Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como resultado exclusivo de escolhas individuais. Hoje, a ciência reconhece que o problema envolve fatores genéticos, hormonais, emocionais, sociais e ambientais.
"O corpo humano possui mecanismos biológicos que regulam fome e saciedade. Quando há ganho de peso significativo, o organismo tende a defender esse novo peso, dificultando a perda e favorecendo a recuperação dos quilos eliminados", explica Dr. Lucas, dizendo ainda que esse fenômeno ajuda a explicar por que dietas restritivas, isoladamente, costumam falhar no longo prazo.
Ele ainda destaca que, além disso, fatores emocionais como ansiedade, estresse e depressão podem desencadear episódios de compulsão alimentar, pois a comida, para muitas pessoas, funciona como válvula de escape em meio à pressão cotidiana.
Tratamento multifatorial: abordagem integrada
Diante dessa complexidade, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), defende que o tratamento da obesidade deve ser multifatorial. Ou seja, não basta prescrever uma dieta: é necessário considerar o indivíduo de forma integral.
A mudança no estilo de vida, porém, continua sendo a base do tratamento. "Para ser efetivo, esse o tratamento da obesidade precisa incluir reeducação alimentar, prática regular de atividade física, organização da rotina e cuidados com a saúde mental", confirma Dr. Lucas. Para ele, pequenas metas realistas tendem a ser mais eficazes do que transformações radicais e difíceis de sustentar.
Como citado acima pelo médico, a saúde mental também merece atenção e a terapia com psicólogos pode desempenhar papel fundamental, especialmente quando há relação entre alimentação e aspectos emocionais. "O acompanhamento ajuda o paciente a identificar gatilhos, desenvolver estratégias de enfrentamento e construir uma relação mais saudável com a comida", afirma Dr. Lucas.
Quando a medicação é indicada
O médico Lucas Moser diz estar em consenso com muitos dos seus colegas, reforçando que a medicação deve fazer parte de uma estratégia terapêutica ampla, que inclui, como já citado, reeducação alimentar, atividade física regular, acompanhamento psicológico quando necessário e suporte contínuo.
"Nos últimos anos, o uso de medicamentos para controle de peso ganhou destaque. Novas drogas atuam em mecanismos hormonais ligados à saciedade e ao apetite, auxiliando na redução do consumo alimentar e no controle glicêmico, como as novas canetas injetáveis, por exemplo", cita o Dr. Lucas. Ele ressalta, no entanto, que essas medicações não são soluções mágicas. Elas são indicadas para pacientes com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidades, sempre mediante prescrição e acompanhamento médico próximo.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos, aprovaram medicamentos específicos para o tratamento da obesidade em pacientes que atendem a critérios clínicos definidos, como índice de massa corporal (IMC) elevado ou presença de comorbidades.
No entanto, Dr. Lucas reforça o alerta: "a medicação não substitui hábitos saudáveis; ela deve ser usada como parte de um plano terapêutico amplo, com acompanhamento profissional contínuo. Sem mudanças comportamentais, o risco de reganho de peso permanece".
Em situações de obesidade severa, quando outras estratégias não apresentam resultado satisfatório, a cirurgia bariátrica pode ser considerada. O procedimento reduz o tamanho do estômago e altera mecanismos hormonais relacionados à fome e à saciedade. Apesar dos bons resultados em muitos casos, a cirurgia exige preparo psicológico, acompanhamento nutricional rigoroso e mudanças permanentes no estilo de vida.
Um desafio coletivo
Médicos como o Dr. Lucas defendem que o combate à obesidade deve começar na infância. "Incentivar alimentação equilibrada, limitar o consumo de ultraprocessados e promover atividades físicas desde cedo são estratégias fundamentais; a obesidade da vida adulta começa a ser desenvolvida na infância", adverte o profissional.
Ao final, ele diz ainda ficar claro que o aumento dos níveis de obesidade não é apenas um problema individual, mas um reflexo do ambiente em que se vive. A rotina corrida, o estresse constante e a facilidade de acesso a alimentos calóricos formam um cenário propício ao ganho de peso.
"Enfrentar essa realidade exige uma abordagem ampla, que una conscientização, políticas públicas, suporte profissional e mudanças graduais no estilo de vida. Mais do que buscar soluções rápidas, o desafio está em promover saúde sustentável a longo prazo — com acolhimento, informação de qualidade e estratégias baseadas em evidências científicas", finaliza Dr. Lucas Moser.
