Amazonas

Encontro sobre Lagos Sentinelas da Amazônia reune pesquisadores e comunitários em Tefé

O evento promoveu a integração e o intercâmbio com mais de 60 pessoas de diversas regiões da Amazônia e do país que atuarão no projeto.

Entre os dias 18 e 23 de agosto, o Instituto Mamirauá sediou em Tefé (AM) a Primeira Oficina Geral do Projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia”, com o objetivo de fortalecer a integração entre os participantes por meio de debates, troca de ideias e métodos a serem incorporados ao projeto. A programação incluiu reuniões sobre o andamento e perspectivas do projeto, além de uma atividade de campo no Lago Tefé e minicursos.

O evento contou com a participação de cerca de 60 participantes, entre pesquisadores, comunitários e gestores que atuam nos cinco lagos amazônicos que integram o projeto: quatro no estado do Amazonas — Lago Tefé, Lago Coari, Lago Janauacá e Lago de Serpa — e um no Pará, o Lago Grande de Monte Alegre.

De acordo com o pesquisador do Instituto Mamirauá e coordenador geral do projeto, Ayan Fleischmann, o evento foi uma experiência transformadora, pois reuniu em Tefé pessoas de diferentes regiões, com preocupações que são similares, mas também com as particularidades dos cinco lagos. “Saímos todos muito motivados pela continuidade do projeto, para pensar soluções efetivas para os lagos da Amazônia, uma união de vários povos, de várias pessoas, de tanta diversidade de ideias, pensando realmente em um fim comum que é trazer soluções para ambientes que estão sofrendo muito, para comunidades que tiveram desafios enormes no passado recente e que vão continuar tendo no futuro próximo”.

Diante dos desafios enfrentados no contexto das mudanças climáticas, o projeto busca compreender as dinâmicas socioambientais, ecológicas e hidrológicas de grandes lagos amazônicos, aliando a produção de ciência aplicada, o diálogo com as pessoas que vivem nos territórios e a construção coletiva de soluções para a gestão sustentável das águas.

O evento foi uma oportunidade de reunir diferentes perspectivas das pessoas que vivem nos territórios de atuação do projeto. Dentre as dificuldades relatadas, Cláudio Nunes de Lima, residente da Comunidade São Francisco do Arraia, na região do Lago Tefé, destaca as dificuldades com deslocamento fluvial, o acesso à água potável e alimento no período de seca. “Na seca, temos que passar mais de um mês sem vir na cidade e isso é um sacrifício. Não dá para escoar a produção, falta água. O canal [do Lago Tefé] está aterrando, é só uma lama até chegar na cidade”.

Por outro lado, no Lago de Serpa, no estado do Pará, os desafios são outros. A seca proporciona mais fartura, pois é quando os peixes que estão no Rio Amazonas migram para o Lago de Serpa, conta Maria Jadiane, representante da Associação Quilombo Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa, município de Itacoatiara (AM). “Na cheia, a gente sente mais o impacto porque nivela a água do Rio Amazonas com o Lago de Serpa e geralmente tem um pouco de contaminação porque o Rio Amazonas está bem mais contaminado. Eu espero do projeto é o estudo da qualidade da água, por conta do impacto da cheia, a gente não sabe a qualidade da água porque nem todos têm o recurso de ter o poço em casa e muitos ainda usam o rio para beber água, para cozinhar, então com o projeto vai ficar muito mais fácil para a gente entender a qualidade da água”.

A oficina geral integra a primeira etapa do projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia”, iniciado em dezembro de 2024. Após essa fase, o projeto prevê atividades e oficinas nos territórios dos cinco lagos, incluindo atividades de engajamento comunitário, diagnóstico socioambiental e monitoramento ambiental dos lagos.

Sob a liderança do Instituto Mamirauá, o projeto recebe apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), por meio do edital nº 19/2024 – Pró-Amazônia. A iniciativa reúne 15 instituições parceiras, nacionais e internacionais. Além do CNPq, principal financiador do projeto, a primeira oficina geral foi realizada em parceria com a WCS e a Aliança Águas Amazônicas, com apoio da Fundação Gordon e Betty Moore e do FEFACCION da Embaixada da França no Brasil.

Sobre o projeto “Lagos Sentinelas da Amazônia”

Intitulado “Lagos Sentinelas da Amazônia: Centro Transdisciplinar para Compreensão das Dinâmicas Socioambientais e das Águas Amazônicas sob Mudanças Climáticas”, o projeto teve início diante dos cenários alarmantes enfrentados pelas águas amazônicas nos últimos anos. Lagos da região se mostraram particularmente sensíveis às mudanças climáticas, sendo impactados por secas extremas que ocasionaram a morte de diversas espécies — entre elas, centenas de botos nos lagos Tefé e Coari, no Amazonas —, além de afetar milhares de pessoas que vivem nessas regiões. Nesse contexto, devido ao fato dos lagos estarem em posições mais baixas na paisagem, eles funcionam como “sentinelas” porque recebem, abrigam, acumulam e refletem tudo que está em seu entorno.

Diante dos problemas enfrentados, o projeto busca compreender as dinâmicas socioambientais e eco-hidrológicas dos grandes lagos amazônicos no contexto das mudanças climáticas, por meio da produção de ciência aplicada, do diálogo com os territórios e da construção coletiva de estratégias de gestão sustentável das águas.

A partir dessa ideia, o projeto tem atuação em cinco lagos de alta relevância socioeconômica ao longo do rio Solimões-Amazonas. Cada um conta com a atuação de uma instituição local parceira: as ações no Lago Tefé são coordenadas pela equipe do Instituto Mamirauá; o Lago Coari, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam – Coari); o Lago Janauacá, pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa); o Lago de Serpa, pela Ufam – Itacoatiara; e o Lago Grande de Monte Alegre, pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).

Esses sistemas aquáticos foram escolhidos por representarem diferentes contextos ambientais e de pressões antrópicas ao longo de mais de 1.400 km do Rio Solimões-Amazonas. O projeto combina monitoramento remoto via satélite com coletas mensais in loco e oficinas participativas com as comunidades. As ações incluem avaliação da qualidade e da dinâmica das águas, diagnóstico do saneamento básico, identificação de impactos sociais e culturais das mudanças ambientais e climáticas, além da proposição coletiva de soluções para os desafios identificados.

A iniciativa integra a Chamada CNPq/MCTI/FNDCT nº 19/2024 – Pró-Amazônia, voltada à criação de Centros Avançados em Áreas Estratégicas para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. O projeto é coordenado pelo pesquisador Ayan Fleischmann, do Instituto Mamirauá, em parceria com outras 15 instituições nacionais e internacionais.

Entre as instituições parceiras do projeto, estão: Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), Instituto Tecnológico Vale (ITV), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de Brasília (UnB), Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), Instituto Cary e Universidade Bangor e Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB).

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